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Ficha técnica:

"Ebó contra o Carrego Colonial" (2020)

Este Ebó só circula, gratuitamente, pelo financiamento do Edital Bolsa de Fomento à Criação UFMG, Belo Horizonte, 2020.
Autor: Rodrigo Rafael Gonzaga
Planejamento Gráfico: Isley Borges
Consultoria Especializada: Maria Cristina Andrade Florentino (Iyalorisa Cristina Ifatoki)
Orientação: Prof. Dr. Amir Brito Cador
Tiragem: 16 exemplares    
Gráfica: EloPrint / Alô Carimbos
Obra do selo: Josafá Neves, Exú, 2018, óleo sobre tela, Brasília/DF.

Repensar a noção de Èsù enquanto princípio de tudo, energia de ignição, origem da invenção para se livrar do desencantamento colonial.

Características gerais:

Consiste na construção de um múltiplo, porém um múltiplo remontado numa perspectiva epistemológica antirracista e decolonial. Trata-se de apresentar ao público quem? Ou o quê? Èsù é para aqueles que o vivenciam e o cultuam dentro de uma cosmo visão iorubá. Como? Enviando-lhes, através de Èsù, um Àkasá.


Para pensar sobre as presenças negras-africanas nas margens ocidentais do Atlântico, e pensar sobre seus atravessamentos, vamos inserir nesta narrativa alguns elementos acompanhados de seus usos e significados. Como operador dessa mensagem teremos Èsù, ele será nosso comunicador. Para os iorubanos e para o povo de candomblé Ketu esse orixá é aquele que mais se aproxima do ser humano, ele é metade deus, metade homem. É o que primeiro é saudado porque a ele foi dada a missão de prover a comunicação em entre o Orun (céu) e o Aiyê (terra). Èsù está entre nós, atua nos vazios deixados, se faz presente nas frestas que esquecemos.

Colocar-se a pensar na proposta aqui feita, de conhecer Èsù como advento
fundamental de potência, de força realizadora, pode ser uma centelha motivadora para construir um pensamento decolonizado, livre das dominações do existir, sem sobrepor conhecimentos.

Enfrentar as demandas contemporâneas exige que novos caminhos sejam abertos,
porém, abertos livres dos carregos coloniais2. Por isso inserimos a noção de ebó contra carrego colonial, já que “carrego” é uma expressão muito utilizada por nós das religiões afro-brasileiras. Entendam ebó como qualquer oferenda feita e ofertada aos orixás em forma de agradecimentos ou na busca de romper obstáculos, resolver problemas, gerar oportunidades, abrir caminhos e portas. Para os iorubas, Èsù está no Aiyé (Terra) para abrir os caminhos para as realizações dos seres humanos. Èsù Onã, o senhor dos caminhos, aquele que é o mensageiro, é quem faz essa comunicação. Por isso Èsù é nosso comunicador, e é perspectivado nele que reexistimos em outra lógica de conhecimento, eliminando as chamadas permanências da colonização. Èsù é o múltiplo!

Tendo como referência toda sua importância e dimensão sagrada e simbólica, tanto na forma de preparo, quanto em seus usos ritualísticos, peço Agô (licença) a Èsù para me apropriar desse saber e multiplicá-lo; remontando esse ebó!


O Àkasá é uma comida sagrada, presente em quase todos os rituais do candomblé Ketu. Todos os orixás, sem exceção, recebem o ákasá. Para o povo de Ketu ele remete o próprio significado da vida, ele é, com toda sua simplicidade e potência um dos principais alimentos dados aos orixás, de Èsù a Oxalá. O Àkasá é capaz de desenvolver paz e prosperidade na Terra, ele restitui o axé, nossa força vital necessária para interagir e viver em equilíbrio com o visível e o invisível.


De modo geral, um Akasá é a soma de uma pasta de farinha de milho branco cozida com água, até virar um mingau resistente. A essa pasta o povo de candomblé Ketu dão o nome de eco/èkó. Enquanto permanece esse mingau, essa massa branca, ainda não possui vida, ainda não recebeu sua parcela de existência.
 

Ekó só vira Àkasá quando, ainda quente, é envolvido em uma folha de bananeira. Ao ser despojado da massa que compõe e enrolado, artesanalmente, alimentado de boa energia, um-a-um em pequenos recortes de folha de bananeira passada, cuidadosamente no fogo, é que o Àkasá ganha sua potência individualizada3, e principalmente oculta pelo poder da Ewé (folha).
 

Assim o Àkasá simboliza o corpo, é a representação de um ser, e por isso é o principal ebó capaz de restituir e redistribuir o axé!

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